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E ele… matou.
Matou o pai.
Matou a mãe.
Matou o irmão de três anos, o irmão que ainda cheirava a leite e inocência.
E depois disse:
“Faria tudo de novo.”
Sem chorar.
Sem tremer.
Sem hesitar.
O menino de 14 anos que matou sua família inteira é o reflexo mais sombrio do nosso fracasso coletivo.
Vivemos cercados de tecnologia, mas cada vez mais órfãos de afeto.
Temos wi-fi, mas não temos conversa.
Temos redes, mas não temos vínculos.
Temos alarmes, mas não escutamos o outro.
Como pode?
Como não treme uma mão tão nova?
Como não arde a alma ao ver o sangue de quem te gerou, jorrar no chão da própria casa?
Talvez porque a alma dele já estivesse morta há muito.
E ninguém percebeu.
“Faria tudo de novo.”
Como alguém tão jovem pode pronunciar tamanha frieza, depois de apagar a luz da mãe, do pai, e do irmão de três anos?
Não há resposta simples.
Mas há perguntas urgentes.
Não, não se justifica.
Não há como romantizar o horror.
Mas é preciso olhar para ele sem a venda da vingança e sem a armadura da hipocrisia.
É preciso ver o que fizemos, ou deixamos de fazer.
Porque o garoto que diz “faria tudo de novo” é o espelho rachado da nossa falência coletiva.
A tragédia não começou nos disparos.
Não havia monstros ali no começo.
Apenas um menino que foi se perdendo entre realidades virtuais e paralelas, entre jogos, chats e ausências, enquanto a sociedade distraída chamava isso de “fase”.
Um adolescente que mata a família inteira é o sintoma mais brutal de um mundo que já morreu um pouco em cada tela azul, em cada agressão banalizada, em cada ausência de diálogo, em cada abandono emocional.
E a raiz dessa tragédia está em todos nós: Não foi só ele que apertou o gatilho.
Foi a ausência.
Foi o descaso.
Foi a cultura do medo.
Foi o abandono travestido de rotina.
Foi o Estado omisso, a escola surda, a família adoecida, a internet cruel.
E agora?
Agora restam os corpos, o luto, e essa frase que ecoa como um abismo:
“Faria tudo de novo.”
Que esse silêncio sem lágrima nos acorde.
Antes que outros garotos digam o mesmo.
Antes que mais lares terminem em sangue.
Antes que a próxima tragédia seja novamente tratada como exceção, quando já é o grito de um tempo inteiro perdido de si mesmo.
Que essa tragédia não seja só manchete, mas espelho.
Porque se crianças estão matando…
É porque adultos estão falhando.
Dylvan Castro
Mestre em Direito/Consultor Jurídico

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