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O poder como patologia silenciosa
Por Dylvan Castro
O poder, por definição, deveria ser instrumento de serviço, de responsabilidade coletiva, de compromisso com o bem comum. No entanto, em muitas democracias frágeis ou ambientes institucionais permissivos, ele se transforma em vício, e, mais do que isso, em patologia.
Não é incomum vermos, ao longo da história, figuras emocionalmente instáveis, culturalmente superficiais e moralmente frágeis assumirem cargos de extrema relevância. Gente despreparada, mas sedenta de glória. Gente que não busca servir ao Estado, mas usá-lo como palco para suprir carências afetivas, delírios de grandeza ou desejos de dominação. E o resultado disso é devastador.
O processo de deterioração costuma ser sutil. Começa com discursos carismáticos, promessas redentoras, uma imagem cuidadosamente construída de “líder visionário”. Mas, por trás do verniz, há uma alma autoritária que pouco a pouco abandona o diálogo, recusa o contraditório e se cerca de bajuladores. A crítica passa a ser vista como ameaça pessoal. A divergência, como deslealdade. A lei, como obstáculo.
É nesse ambiente que o poder se converte em delírio. A vaidade se agiganta, a empatia se esvai, o senso de realidade é consumido pela retórica. O governante já não governa para a sociedade, mas para o próprio espelho. E, ao se confundir com a instituição que ocupa, acredita que ferir as regras é um direito legítimo de quem “sabe o que faz”.
Essa dinâmica não se restringe a um regime específico, tampouco a uma ideologia. Ela pode se infiltrar em democracias, ditaduras, empresas privadas, igrejas, partidos, tribunais. Onde houver estrutura de poder concentrado e pouca fiscalização social, há terreno fértil para a degeneração da liderança.
Mas se há algo mais perigoso do que um déspota no poder, é uma sociedade que o legitima, que aplaude sua truculência, que romantiza sua ignorância, que transforma o autoritarismo em estilo. Não há tirania que se sustente sem o silêncio dos que deveriam resistir.
Por isso, é fundamental olhar para além da superfície. Desconfiar do encantamento fácil, da promessa grandiosa, do líder que se vende como salvador. O verdadeiro servidor público é, por natureza, comedido, ético, sensível às críticas e consciente de seus próprios limites. Quando alguém se coloca acima da lei, do povo e da história, não temos mais um líder: temos um risco.
A democracia é, por essência, um exercício de vigilância. E se não estivermos atentos, o poder continuará a devorar os fracos, e os fracos, a devorar o país.

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